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“Não podemos fechar os olhos”: CNBB reforça combate aos abusos e defende prevenção como caminho essencial
Igreja no Brasil assume postura de transparência, amplia estruturas de proteção e alerta para a responsabilidade de toda a sociedade diante da violência contra vulneráveis
Por Murilo Galhardo
Publicado em 21/04/2026 11:33 • Atualizado 21/04/2026 14:27
62ª AGCNBB

Durante a quinta coletiva de imprensa da 62ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, realizada em Aparecida (SP), a Igreja no Brasil colocou no centro do debate um dos temas mais sensíveis da atualidade: a proteção de menores e adultos em situação de vulnerabilidade. O encontro reuniu lideranças diretamente envolvidas na formulação de políticas de prevenção e enfrentamento aos abusos, evidenciando que a questão exige não apenas medidas institucionais, mas uma mudança de mentalidade que envolva toda a sociedade.

Participaram da coletiva o presidente da CNBB, Cardeal Jaime Spengler; o presidente da Comissão Especial para Tutela de Menores e Adultos Vulneráveis, Dom Wellinton de Queiroz Vieira; e a presidente da Conferência dos Religiosos do Brasil, iR, Maria do Disterro Rocha Santos.

Ao abrir as reflexões, Dom Jaime destacou que o tema dos abusos ainda carrega dor, vergonha e desafios históricos, mas precisa ser enfrentado com coragem e clareza. Segundo ele, embora a problemática não seja recente, a Igreja tem intensificado, nas últimas décadas, ações concretas voltadas à conscientização e à prevenção.

“Precisamos abordar essa questão com humildade e transparência. Não é possível ignorar uma realidade que fere profundamente nossas crianças e adolescentes.”

O cardeal ressaltou ainda que o enfrentamento dos abusos ultrapassa os limites da Igreja e exige o envolvimento de toda a sociedade, uma vez que os casos não se restringem ao ambiente eclesial.

Na mesma linha, Dom Wellinton de Queiroz Vieira reforçou a gravidade do problema ao destacar que o abuso sexual deixa marcas permanentes na vida das vítimas, afetando dimensões emocionais, sociais e até espirituais. Para ele, a resposta da Igreja passa por uma combinação de evangelização, estrutura e responsabilidade institucional.

“A pessoa abusada carrega marcas por toda a vida. Por isso, não podemos baixar a guarda nem fechar os olhos.”

O bispo explicou que a Igreja no Brasil tem avançado na criação de comissões diocesanas responsáveis por acolher denúncias, acompanhar os casos e promover ações preventivas. Essas estruturas, segundo ele, já estão presentes na maioria das dioceses e representam um passo importante na construção de ambientes mais seguros.

Além disso, Dom Wellinton enfatizou que os casos de abuso devem ser tratados também no âmbito da justiça civil, destacando a obrigatoriedade de comunicação às autoridades competentes sempre que houver indícios de crime.

“Quando há sinais de crime, é necessário comunicar. A resposta precisa acontecer tanto na Igreja quanto na justiça comum.”

Outro ponto que chamou atenção durante a coletiva foi o reconhecimento de que a maior parte dos abusos ocorre dentro do ambiente familiar ou em círculos de confiança, o que amplia a complexidade do enfrentamento e exige ações mais amplas de conscientização.

A presidente da Conferência dos Religiosos do Brasil, irmã Maria do Disterro, trouxe à tona a contribuição da vida religiosa na construção de uma cultura de cuidado. Segundo ela, o trabalho desenvolvido pelo Núcleo Lux Mundi tem buscado fortalecer comunidades em todo o país para lidar com essa realidade de forma responsável e preventiva.

“Esse tema é uma ferida na vida das nossas famílias. Precisamos cuidar de nós para não sermos causa de dor para o outro.”

A religiosa destacou ainda a importância do trabalho em rede e da união entre diferentes organismos da Igreja para enfrentar o problema de maneira mais eficaz.

“Sozinhos somos fracos. Precisamos caminhar juntos para que a vida seja sempre a prioridade.”

Entre os pontos mais fortes da coletiva esteve a reflexão sobre a necessidade de romper o ciclo da violência. Dom Wellinton apontou que muitos abusadores foram também vítimas no passado, o que exige um olhar atento não apenas para a punição, mas para a prevenção e o cuidado integral.

“Não basta punir. Precisamos criar estruturas onde os abusos não aconteçam. Só assim construiremos um futuro diferente.”

A coletiva também marcou a assinatura de um protocolo de intenções entre diferentes instâncias da Igreja, reforçando o compromisso com a implementação de políticas de proteção e com a construção de ambientes mais seguros para crianças, adolescentes e pessoas em situação de vulnerabilidade.

Ao final, ficou evidente que o enfrentamento dos abusos é um caminho contínuo, que exige vigilância, compromisso e, sobretudo, uma postura firme diante de uma realidade que desafia não apenas a Igreja, mas toda a sociedade.

 

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